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Liga NOS Aug 25, 2019 Daniel Sousa

SL Benfica 0-2 FC Porto. Lage foi teimoso e dragão fê-lo pagar (análise)

O SL Benfica foi derrotado este domingo pelo FC Porto, em pleno Estádio da Luz, por 0-2. Mais do que a derrota, a equipa encarnada foi completamente dominada diante do seu público. No primeiro clássico da época, Sérgio Conceição deu um recital tático a Bruno Lage como ainda não se tinha visto em Portugal, o que comprovou que ainda há muita coisa a trabalhar pelo técnico encarnado.

A chave para o sucesso portista esteve na teimosia de Lage em continuar a combinar duplas que não combinam de todo. Ora vejamos: Florentino Luís e Andreas Samaris e Raúl de Tomás e Haris Seferovic. Duas duplas que não podem atuar ao mesmo tempo pelas semelhanças que os jogadores apresentam entre si. O caso mais gritante é o da dupla de médios. Com Samaris e Florentino, as águias passam a ter dois jogadores na posição '6' e perdem o '8' de ligação que precisam. Durante a partida, foram várias as ocasiões em que foi possível ver os dois lado a lado, oferecendo todo o espaço aos jogadores portistas para pensar e executar.

Lage corrigiu este aspeto com a entrada de Taarabt, mas já foi tarde. Nessa altura já o FC Porto tinha a vantagem e estava confortável para a gerir na partida. Em relação à dupla RDT/Seferovic, o caso vai parar aos mesmos aspetos do que a dupla Samaris/Florentino: são jogadores semelhantes, as caraterísticas são as mesmas e acabam a anular-se mutuamente. Portanto, o Benfica atuava com um '9,5' com João Félix e neste momento atua com dois '9', faltando uma vez mais aquele segundo avançado que é mais um construtor de jogo do que propriamente um finalizador. Não se enganem: Raúl de Tomás é um finalizador. Por muito bom que seja a vir atrás fornecer apoios, jogar de costas e rodar sobre os adversários, é perto da baliza que ele tem que estar para fazer estragos. Com este esquema, vai ser difícil começar a marcar enquanto jogar tão longe da baliza. 

Chega de falar do SL Benfica e vamos agora falar um pouco daquilo que foi a estratégia montada - na perfeição, diga-se - por Sérgio Conceição. O técnico portista identificou todas as lacunas encarnadas e explorou-as como ninguém tinha feito até agora. A começar logo na saída de bola das águias, que foi fortemente condicionada, impedindo o SL Benfica de sair de forma apoiada e segura como tanto gosta. Esta tarefa foi muitas vezes facilitada pelas caraterísticas de Samaris e Florentino, que tendo as mesmas noções de posicionamento, acabavam por pedir a bola muito próximos um do outro, atraindo a marcação. Com Taarabt os encarnados saíram mais facilmente da primeira fase de construção com qualidade, porque a imprevisibilidade do marroquino e o seu posicionamento mais alto em relação a Florentino obrigavam o FC Porto a "esticar" as linhas e não pressionar tão compacto.

O outro momento em que a pressão portista foi ativada tem a ver com Rafa Silva e Pizzi. Na ausência de um médio de ligação, seria de esperar que Samaris e Florentino apresentassem muitas dificuldades na construção e que chegassem a uma altura em que não seriam capazes de progredir, porque não são essas as suas caraterísticas. Nesta altura, qual é a solução que o SL Benfica apresenta? Lateralizar para Rafa ou procurar Pizzi em terrenos interiores. Quer para uma, quer para outra situação, os dragões estavam muito bem preparados. Matheus Uribe e Danilo Pereira foram dois jogadores muito importantes neste momento do jogo, encurtando os espaços entre linhas e mantendo-se perto do '21' e do '27' para travar as combinações interiores. O bloco portista nunca se "partiu", nunca foram concedidos espaços durante a basculação e sempre que o SL Benfica procurava o jogo interior, perdia a bola numa questão de segundos.

Depois existe um FC Porto muito objetivo com bola. A equipa encarnada também facilitou a tarefa, com os médios a demorarem imenso tempo a reagir à perda de bola e a permitirem aos médios portistas estarem de frente para o jogo e com tempo para pensar e executar. O facto dos médios do SL Benfica demorarem a aproximar-se para tentar o roubo deixou também exposta a defesa, que estava muitas vezes subida e que tinha que recuar de imediato. O FC Porto identificou bem esses momentos e lançou a bola na profundidade quase sempre nos timings certos, causando muitas dificuldades sobretudo a Ferro, que foi apanhado muitas vezes ainda a meio caminho e já fora do lance perante a velocidade de Marega.

A partida serviu para Bruno Lage perceber que está errado na teimosia de manter as duplas já mencionadas. Sérgio Conceição expôs todas as fragilidades dessas escolhas do técnico encarnado e saiu da Luz com uma vitória muito merecida e com um recital de futebol dado no primeiro clássico da época.